- - - - - - - - - - - - - - - - - - foreign/extranjero/étranger

20 de jan de 2017

Fomos foz

Não se pede perdão por desamar.
Coração é mesmo enchente em desvario
como rio deságua após levar barragem
que nem se dá Caronte pois remar contrário.
Não peças perdão por não me amar;
sequer o fiz por ter por ti aguado em delírio.
Se não rio, foi por deixar lavar a margem
interna de meu peito a teimar adversário
ser à maré tua.
Do leito, eu era superfície e tu, a Lua.
Eu, lodo e imundície; tu, de reis, falua.
Eras tu de espécie que flutua;
que se espera que vicie; inalcançável légua;
algo que se noticie; rara verde-água pedra-da-lua,
o que Deus providencie; ponto com que se conclua
o que homem renuncie.
Faz teu deságue,
fluido amor.
Sê a vazante que me naufrague
e este corpo em ondas sem remo nem rima (de)compor.


Mergulhão

21 de dez de 2016

Desgirassou

Desde o princípio Abelha
jurou sugar de pólen
que fosse apenas meu.
Assim campos fizemos
de um vivo amarelo
mui louro e majestoso
que em recompensa Sol
fez-me Seu girador.

Tão divina família
que mesmo bicho homem
rendeu-se ao nosso mel.
- Mais sóis semearemos,
minha flor-caramelo! -
zumbia orgulhoso
o inseto que esposou
a planta de áurea cor.

Porém, rosa vermelha,
cravo e dália também
vêm amargar-me a fel;
e após provar crisântemos
qualquer receptáculo
propõe à Abelha gozo.
Entre tons me restou
um ocre sem vigor.

A Estrela nem me esguelha
e agora os dias nascem
como a quem já morreu:
destecem-me os ramos,
não brilho à ouro belo,
caule não mais vistoso.
- Prazer; Desgirassol.
Alcunha Segue-Dor.


Mergulhão

Nato

Seguro teu rosto em minhas mãos
a te acautelar de que em mim estás seguro.
Aninho tua fronte no meu peito-forte
a te certificar de que lá é teu ninho.
Aqueço teu corpo bem côncavo ao meu
a te reconfortar ao calor do acalanto.

Ainda que o andar solitário me seja norte,
caminhar contigo me trilhou novo rumo.
Mesmo que à noite eu, só, esteja pleno,
é nela que há complemento por um sermos.
Antes meu espírito errante vagava na ausência;
hoje meu ânimo goza apenas em tua presença.

Por isso e tudo é só por ti o nascimento
– todo dia – do qual provo e ouso vir.
Eu, então, renato, nascido de novo,
como a Semente-Sol, a Criança da Promessa
em natalício rito de luz n’A Noite do Inverno,
findo e reato meu ciclo em ti por nós.


Mergulhão

24 de out de 2016

novilho

eu tenho tanto amor a te dar
tanto
mas tanto amor
que tu te nutres
no gozo de outro

no gozo de outro
não posso mais rir
ainda que eu tente
esse tanto é teu
mas tu te deleitas
no gozo de outro

no gozo de outro
tu te alimentas
feito vitelo sedente da mãe
bezerro de um pasto inteiro
por regozijar-se
no gozo de outro
e
no gozo de outro
e
no gozo de outro

no gozo de outro
confesso
não sinto mais doce
coalhou
a boca hoje azeda
no gozo de outro

no gozo de outro
eu te aceito
se somente assim te sacias
por ora
e faz-te copo profundo
e transborda
por horas
no gozo de outro

no gozo de outro
eu sei que não há
tanto
mas tanto amor como eu a me dar-te
tanto que quando tento
outrem nutrir com tanto
não deixo sabor
no gozo de outro


Mergulhão

17 de out de 2016

Até te conhecer

Até te conhecer,
eu não decifrava os escribas de Deus.
Hoje lhe peço mais dias a ti e, se for dele intento, contigo.

Até te conhecer,
eu não mais cria no amor-d’Os-Antanhos.
Hoje por nossos abraços de horas tu sentes meu peito em furor.

Até te conhecer,
eu não lia cor mesmo em flor fluorescente.
Hoje brigam girassóis por qual te será o meu mimo ao café.

Até te conhecer,
eu sucumbia aos meus íncubos vícios.
Hoje sustento-me em ti e por ti por seres meu membro e em mim.

Até te conhecer,
eu não rimava paixão com teu nome.
Hoje todo alexandrino é rascunho raso às minhas serenatas.

Até te conhecer,
eu nunca exerci a minha apoteose
de limbo até sonho, de lodo até Lótus, de ignorar-me até te conhecer.



Mergulhão

13 de ago de 2016

Pequeno Sol


Bom dia, Pequeno Sol.
Alvoradas na janela leste,
recebo-te em vitória e gozo.
Sentado à varanda em neblina,
testemunho a personificação
que abraço para rotina.


Como justo nazireu,
somente um sorriso teu
guarda-me de males cinéreos,
rasga leões que me ruminam,
mata pecados filisteus que
minh’alma acossam.


Findo teu reino em luz,
crepúsculos à janela oeste
choro por perder-te em noites
e me deito feito feto ao leito,
lânguido e por ti oscilante.
Boa noite, Pequeno Sol.


Mergulhão